sábado, 20 de novembro de 2010

"Leite, leitura, letras, literatura, tudo o que passa, tudo o que dura, tudo o que duramente passa, tudo o que passageiramente dura, tudo, tudo, tudo, não passa de caricatura, de você, minha amargura, de ver que viver não tem cura."
Leminski

Ela...

Como uma peça da mobília, que com o passar do tempo tornou-se velha.
Perdeu a serventia.
Parada e solitária.
Atravanca o caminho que já fora seu.
Melancólica.
A espera de um tropeço num momento distraído.
Ou um esbarro apressado.
Esperando...
Efêmera vítima do tempo traiçoeiro.
O tempo!
Quem sabe ele não lhe seja novamente parceiro!?
E com o passar do tempo ela, justo ela, possa servir de recosto para algum par de ombros cansados.
A.M.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Tic...Tac...

Me peguei olhando o calendário.
Não sei se foi fruto da minha imaginação maluca, ou resultado das noites mal dormidas, mas juro que vi aquelas folhinhas magicamente criarem asas!
E de repente os dias, meses e anos passaram voando diante dos meus olhos.
Sobrevoando mentalmente o caminho inverso dos fatos vou do fim ao começo em um piscar de olhos.
Algumas lembranças me faltam, e penso que talvez as tenha deixado escapar pela janela numa rajada de vento.
Não sei. Só sei que não lembro o momento em que deixei de me importar.
Não lembro... Ou talvez, nem queira mesmo lembrar.




A.M.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Um arrepio de sensatez

“Vocês sabem o que significa encontrar-se diante de um louco? Encontrar-se diante de alguém que sacode dos alicerces tudo o que vocês construíram dentro de si, em torno de si, a lógica, a lógica de todas as suas construções!”
(Escritor e dramaturgo italiano Luigi Pirandello)

Os fios de cabelo desalinhados emolduram teu rosto, e enquadram teus pensamentos sem sentido.
Procuro um motivo. Tento encontrar a razão, em cada ruga, em cada marca. Mas, no irreal, a única certeza que me permanece lúcida é a de que a nossa realidade construída tem a mesma solidez, da matéria que compõe as nuvens.



A.M.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

CALÇANDO HISTÓRIA

O tenentismo, movimento político militar ocorrido nas décadas de 1920 e 1930, é considerado por muitos historiadores como um dos movimentos mais importantes na história brasileira. Certamente já foi escrito e descrito de cabo a rabo, de cor e salteado nos livros de história, porém nunca antes foi contado por um sapato.
Sempre fora um sapato versátil, tendo sido utilizado de tantas maneiras que, por certo, com alguma parte de suas pegadas você vai se identificar.
Calçou os oficiais que se opuseram à República Velha, denunciando a corrupção, a deficiência no sistema educacional público do país e o coronelismo com seu voto de cabresto. Lutou por seus ideais dentre os dezoito do Forte de Copacabana, em cinco de julho de 1922, sob os passos de Eduardo Gomes.
Esteve dos dois lados, calçando tanto Júlio Prestes quanto Getúlio. Nos pés do primeiro passou por tempos mais movimentados, liderando a intentona comunista e tendo gastado sua sola incansavelmente nas marchas de 22 e 24.
Seguindo os passos de Vargas presenciou a implantação do modelo prussiano, o protecionismo do Estado contra importados e o investimento de capital para fortalecer indústrias nacionais. Aliando capital estatal e nacional participou da construção de indústrias, tanto de base como de consumo. Esteve presente na criação do PTB e PSD.
Com a deposição de Vargas permaneceu guardado durante os governos de Dutra e Jango, apenas voltando à ativa em 1950. Porém, em 1954, devido a pressão da oposição, Vargas “sai da vida para entrar na História” e seu fiel par de sapatos acaba descalço, guardando na sola gasta uma vida de memórias.
Hoje, apesar das marcas que o tempo lhe conferiu, permanece um sapato enxuto e, ainda cheio de ideais, trilha os passos de um rabugento professor de história contemporânea.
A.M.
Computador bichado tem lá sua utilidade.
Essa tarde, enquanto descartava alguns
arquivos, me deparei com esse aqui. que escrevi
num momento de observação do sapato velho
de um professor em uma das animadas aulas (rãm-rãm)
de História Contemporânea.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Pode até ser medo do presente.
Talvez saudade de algum passado que não passou.
Quem sabe uma pontinha de insegurança ao saltar no futuro desconhecido.
"E antes que eu confunda o domingo com a segunda..."
Uma pausa nostálgica no meio (ou seria o começo?) do caminho...

Tudo isso e nada disso! Apenas amanheceu mais um domingo preguiçoso.
A.M.

terça-feira, 27 de julho de 2010

"Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal"

Friedrich Nietzsche
Sustentava em seu rosto um sorriso (irritantemente) apaixonado,
de quem levava no peito verdadeira paixão.
Por acaso ou destino bebeu do maior dos amores,
E com inocente alegria encharcou seus lábios na (des)ilusão.

Seu semblante leva outro sorriso,
Agora já embriagado pela realidade. Amargo e forçado.
Movimento dos lábios com dentes de chumbo para camuflar uma sentença.
Divertir o olhar que condena um coração.
Brindar a dor de um desamor.

A.M.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Quando conhecemos alguém, ou chegamos a um lugar novo a primeira coisa que apresentamos é nosso nome. "Prazer me chamo Ana Maria!"
A gente incopora o nome que tem. Seja Maria, Fernanda, Paula, Roberto, Flávio, Marcelo...
De "A" até "Z" existe uma infinidade de nomes e sobrenomes, e a cada sílaba um dicionário de personalidades.
É estremamente bizarro, já que logo na maternidade a gente "ganha" nosso nome e desde então não se separa mais dele.
Tem ainda quem mude o nome em cartório (ou seja lá aonde). Mas se ao invés de nosso nome tivéssemos outro?
Se ao invés de Ana Maria me chamasse, sei lá, Carlota Joaquina... Ia deixar de ser uma garota tímida, viciada em livros e chocolate, e me tornaria algo parecido com a tal rainha temperamental? Eu ia ser a mesma? Ou ia ser tudo diferente?

Muita doidera para uma hora dessas!
Eu (e meu nome) vamos dormir...
Boa noite!
A.M.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada. Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro."

Clarice Lispector, tinha que ser.
Um dia como outro qualquer.
Compromissos agendados e horários marcados.
O relógio gritava: seis e meia!
Bem-vindo de volta, mundo real.
Ao levantar da cama sua cabeça ainda girava.
Apenas se arrumou. Sentou-se a mesa, procurando os cereais mergulhados no leite.
Conforme ia levando-os a boca,
era engolida por mais um dia de rotina e mesmice.
Enfim saiu de casa. Atrasada.
(Aliás, os atrasos também já lhe eram rotineiros)
Era sempre assim: acordar, vestir, comer, sair, correr.
Enfrentar o trânsito, enfrentar o sono, enfrentar o tédio.
O ônibus já se aproximava do ponto.
Parada. Desembarque.
Caminhou com seus pensamentos pelas ruas frias e sozinhas.
Um turbilhão de coisas percorreu sua cabeça num único momento. Estranhou.
Temeu estar ficando louca.
Seria assim que a insanidade toma conta das pessoas?
Parada, numa calçada qualquer?
Não conseguia parar de pensar.
Tanta coisa passou pela sua cabeça que levou,
involuntariamente, as mãos às orelhas, numa tentativa de
cessar a confusão ensurdecedora.
Foi ai que aconteceu.
Parada, naquela rua, quebrou seus
pensamentos e silenciou sua rotina.
Calçada: a espera das ruas.
Ali, imóvel na calçada da vida, esbarrei com ela numa manhã fria. Tropecei em mim mesma.
“And I say humm, hello, little girl”.
A.M.

domingo, 25 de abril de 2010

"Tenho andado distraído, impaciente e indeciso
E ainda estou confuso.
Só que agora é diferente:
Estou tão tranquilo e tão contente.
Quantas chances desperdicei
Quando o que eu mais queria
Era provar pra todo o mundo
Que eu não precisava provar nada pra ninguém.

Me fiz em mil pedaços pra você juntar
E queria sempre achar
Explicação pro que eu sentia.
Como um anjo caído
Fiz questão de esquecer
Que mentir pra si mesmo
É sempre a pior mentira.

Mas não sou mais
Tão criança a ponto de saber tudo.
Já não me preocupo
Se eu não sei porquê
Às vezes o que eu vejo
Quase ninguém vê
E eu sei que você sabe
Quase sem querer
Que eu vejo o mesmo que você.

Tão correto e tão bonito
O infinito é realmente
Um dos deuses mais lindos.
Sei que às vezes uso Palavras repetidas
Mas quais são as palavras
Que nunca são ditas?

Me disseram que você estava chorando
E foi então que percebi
Como lhe quero tanto.

Já não me preocupo
Se eu não sei porquê
Às vezes o que eu vejo
Quase ninguém vê
E eu sei que você sabe
Quase sem querer
Que eu quero o mesmo que você..."
LEGIÃO URBANA

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Sinto como se estivesse mandando mensagens pra lugar algum.
Escrevendo para o nada, e para ninguém...
Converso, apenas, com o desconhecido dessa tela escura.
O cursor, inquieto e instigante, é meu único companheiro.
Pipocando idéias inconstantes... Tolas! Fazem o teclado romper o silêncio e, motivado por meus dedos gelados,escolher letras.
As letras, quando solitárias, são um tanto levianas. Por isso se casam, e cuidadosamente, formam palavras, que se separam e se juntam diversas vezes, tecendo frases. As frases tentam trazer para si algum significado ou sentido.
Mas, até onde sou eu a única a comandar meus dedos quando pulam pelo teclado, formando letras, palavras, frases, significados e sentidos?
"Só sei que nada sei". E minhas palavras, confusas, revezam-se: Ora tornam-se ocas... Ora são feitas de sonhos!




A.M.

domingo, 28 de março de 2010

PIPOCAS DA VIDA - Rubem Alves


Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho para sempre. Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo.
Quem não passa pelo fogo, fica do mesmo jeito a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e uma dureza assombrosa. Só que elas não percebem e acham que seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.
Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos: a dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, o pai, a mãe, perder o emprego ou ficar pobre. Pode ser fogo de dentro: pânico, medo, ansiedade, depressão ou sofrimento, cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso do remédio: apagar o fogo! Sem fogo o sofrimento diminui. Com isso, a possibilidade da grande transformação também.
Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro cada vez mais quente, pensa que sua hora chegou: vai morrer. Dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar um destino diferente para si. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada para ela. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo a grande transformação acontece: BUM! E ela aparece como uma outra coisa completamente diferente, algo que ela mesma nunca havia sonhado.
Bom, mas ainda temos o piruá, que é o milho de pipoca que se recusa a estourar. São como aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. A presunção e o medo são a dura casca do milho que não estoura. No entanto, o destino delas é triste, já que ficarão duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca, macia e nutritiva.
Não vão dar alegria para ninguém.